Primeiramente, agradeço a você por estar acompanhando esta série de textos. A criação sem telas é uma longa jornada em tempos de acesso irrestrito às tecnologias. É excelente ter você conosco nessa!
Agora, vamos nessa! Ao longo destes textos, você deve ter se perguntado: “mas Aline, se sua filha não tem acesso a telas, o que ela faz?”. Antes de tudo, é necessário que a gente entenda que a necessidade por telas não foi algo trazido pelos nossos filhos, foi algo imposto pelos adultos. Não é algo natural, e entender isso ajuda muito quem não quer criar os filhos com acesso a telas.
Bom, eu sei que existem estudos sobre epigenética que dizem que nossa genética vai se modificando ao longo dos anos e das mudanças externas. Pensando por esse lado, nossos filhos têm mais predisposição do que nós a terem vícios em telas ou a “naturalmente” saberem manusear um celular, por exemplo.
Mas essa transformação não tem muitos anos. Ou seja, ainda dá tempo de revermos nossa relação com a tecnologia e mudarmos isso a partir de nossos filhos, sobre quebrar ciclos que não são saudáveis. Eu não estou dizendo aqui que a tecnologia é a vilã e que devemos abandoná-la. Estou dizendo que o acesso tem que ser realizado com cautela, especialmente nos primeiros anos de vida.
Como mediar a utilização das telas de acordo com a idade?
No Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais criado pelo Governo Federal — que tem o objetivo de garantir a proteção e promoção dos direitos de crianças e adolescentes na internet —, recomenda-se que crianças de até 2 anos não tenham acesso a qualquer tipo de tela. Para crianças de até 12 anos de idade, recomenda-se que não tenham celular próprio e que o acesso seja sob supervisão dos responsáveis. E mesmo depois dos 12, a utilização deve ser acompanhada. Neste guia, você vai encontrar as recomendações para cada faixa etária com base científica,indico muito a leitura.
Não vou me debruçar sobre essas recomendações, pois já estão todas esmiuçadas no guia! Hoje quero conversar sobre alternativas às telas.
O primeiro passo é não permitir que seus filhos pequenos tenham acesso ao seu celular. Isso deve ser uma regra da casa. Sempre que minha filha tenta pegar meu celular, eu peço para ela me entregar e explico que celular não é coisa de criança. É óbvio que existe a curiosidade, isso é normal, mas não podemos ceder. Assim como não oferecemos cerveja a eles só porque estão curiosos, não é mesmo?
Então, o que fazemos?
Quando estamos em casa, minha filha brinca bastante com os brinquedos dela no chão, sozinha ou com a gente. Gostamos de oferecer a ela brinquedos mais interativos, como peças Lego, objetos de montar e desmontar, e estamos começando a oferecer alguns brinquedos montessorianos.
Outra opção que gostamos bastante são os livros. Minha filha se interessa muito por eles: ela folheia, pede para que a gente leia, nos mostra as figuras. Acredito que isso acontece justamente pelo fato de ela não ter acesso a telas. As telas possuem uma estimulação visual muito mais complexa do que a dos livros. Se você oferece muita tela ao seu filho pequeno, é possível que esteja impossibilitando o despertar do interesse pelos livros!
Uma dica que a preceptora Diana deu e de que gostei bastante é oferecer livros que contenham imagens reais. Por exemplo, temos um livro que contém fotografias reais dos animais junto aos seus nomes. Segundo ela, as imagens fantasiosas de alguns livros podem dificultar o entendimento de mundo dos nossos filhos.
Então, vamos lá: vamos supor que a criança chegou da creche ou da escola, brincou com os brinquedos dela, folheou ou leu alguns livros enquanto você preparava o jantar (eu sei que esse momento pode não ser tão tranquilo e envolve algumas pausas para dar colo e carinho). Depois, vocês jantaram em família e o tempo simplesmente passou… já está na hora de dormir. Veja só: não houve tempo para telas.
Bom, certamente nos casos em que a criança passa o dia todo em casa, os desafios são mais complexos. Para isso, também tenho algumas dicas. Convide seu filho a fazer parte da rotina de casa: sentar na cadeirinha de alimentação ao seu lado enquanto você lava a louça ou prepara uma refeição (quantas vezes eu fiz isso!) ou te acompanhar em outras tarefas. Eu sei que pode não ser fácil no início e a criança pode ficar um pouco irritada. Sei que cada criança é única. Mas também confio no poder do hábito. A criança acaba se adaptando e aprendendo a esperar.
Outra coisa que gostamos de fazer às vezes é sair para passear pelas ruas do bairro. Fazemos uma caminhada em família de aproximadamente 30 minutos, respiramos um pouco ao ar livre, observamos as árvores no caminho. Não quero romantizar, as ruas do meu bairro quase sempre estão sujas e há muitos buracos, mas é a opção que temos no momento. Minha filha simplesmente adora. Isso pode ser feito a pé, a depender da idade da criança, mas, no nosso caso, a levamos em seu velotrol.
Agora, aos finais de semana, as opções são inúmeras! A dica sobre as tarefas de casa, sobre os brinquedos e sobre os livros também serve para o sábado e domingo. Mas aqui também entram outras opções: os passeios! Procure programações gratuitas na sua cidade, como o parquinho ou a praça perto de casa, parques, exposições de arte, zoológico e peças de teatro infantis. Todas essas opções são incríveis e vão ajudar muito no gasto de energia! Quando chegarem em casa, só vão querer dormir!
Enfim, eu sei que são dicas muito simples e talvez até óbvias. Mas estou compartilhando o que funciona para a gente. Nem todos os dias vão ser flores; há dias de muito cansaço e dias de algumas birras, mas aprender a lidar com esses momentos também faz parte da criação dos nossos filhos.
Espero que tenha gostado do papo. Agora você vai me dizer nos comentários: quais são as estratégias que você utiliza para evitar as telas?
