Os Nguzo Saba: de onde brotam meus princípios, valores e crenças

“Que não engajemos o mundo com pressa
Que não agarremos de forma impaciente a corda da riqueza
Aquilo que deve ser tratado de forma madura
Que não tratemos em estado de paixão descontrolado.

Quando chegarmos num lugar fresco
Que descansemos plenamente

Que demos atenção contínua ao futuro
Que dediquemos consideração profunda às consequências das coisas

E isso em razão da nossa passagem eventual”

(Karenga, 1999, p.1 apud Karenga, 2009, p. 336-337)

Onde aprendemos a ser mãe?
Quem nos ensina a conduzir uma criança na estrada da vida?

Foi em 2017 que, pela primeira vez, senti o desejo de me tornar mãe. Engravidei em 2021 e, em todos esses anos amadurecendo essa ideia e lendo muito sobre maternidade, imaginei que estaria preparada. Mas, quando recebi o teste positivo nas mãos, meu mundo capotou — não por medo, mas pela consciência repentina de que aquilo era real. Daquele momento em diante, do instante em que acordo até a hora em que durmo, existe um ser sob os meus cuidados.

E então a pergunta inevitável surgiu: quem — ou o quê — me guiará, para que eu possa guiar esta criança? Diz-se que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. Mas se somos nós, mães, as principais responsáveis pelo desenvolvimento do bebê, quem — ou o quê — é responsável pelo nosso desenvolvimento e amadurecimento enquanto mães?

Se pesquisarmos na internet, encontramos textos sobre tudo e para todos os gostos: fórmulas de “como ser uma boa mãe?”, conselhos para aliviar a culpa, listas intermináveis de tarefas e consultorias de todos os tipos. Mas o que sempre senti falta foi de uma discussão mais ampla sobre aquilo que me orienta, pessoalmente. Porque, sem isso, acabo recorrendo o tempo todo a fragmentos das experiências alheias para maternar, na prática.

E é nesse sentido que escrevo esse texto para compartilhar princípios, valores e crenças que orientam o meu maternar, para além de conselhos e dicas. Foi também em 2017 que iniciei a leitura de textos de base africana, e é a partir dessas leituras que tomo conhecimento da afrocentricidade, filosofia kawaida e especialmente os Nguzo Saba.

No entanto, ressalto que há muitos chãos possíveis. Os Nguzo Saba são um dos que escolhi pisar e o principal a me orientar, hoje, — não como verdade única. Mas poderíamos falar, por exemplo, das 42 Leis de Maat, do Código Yourubano Ìwà Ọmọlúàbí, apenas para citar outros conjuntos de valores de base africana que também oferecem fundamentos éticos e filosóficos para o viver.

Os Nguzo Saba tornaram-se mais conhecidos no Brasil por meio da celebração do Kwanzaa, uma comemoração cultural de base africana que acontece durante sete dias, de 26 de dezembro a 1º de janeiro. Inspirado em diversas culturas do continente africano, o Kwanzaa propõe a vivência consciente de sete princípios fundamentais, que orientam a relação consigo mesmo, com o outro e com a comunidade, fortalecendo valores como identidade, pertencimento, responsabilidade coletiva e continuidade cultural.

Os princípios do Kwanza:

Umoja (unidade): empenhar-se pela comunidade e mantê-la na família, na comunidade e na nação;

Kujichagulia (autodeterminação): definir e nomear a nós mesmos, criar para nós mesmos e falar por nós mesmos;

Ujima (trabalho e responsabilidade coletivos): construir e manter unida nossa comunidade; ver como nossos os problemas dos nossos irmãos e irmãs e resolvê-los em conjunto;

Ujamaa (economia cooperativa): interdependência financeira; recursos compartilhados; equilíbrio;

Nia (propósito): transformar em vocação coletiva a construção e o desenvolvimento de nossa comunidade e estar em harmonia com nosso próprio espiritual;

Kuumba (criatividade): sempre fazer o máximo possível, da maneira possível, para tornar nossa comunidade mais bela do que quando a herdamos;

Imani (fé): acreditar de todo coração em nossos pais, nossos professores e nosso povo.

Ao entrar em contato com esses princípios, compreendi que eles não se limitam a uma celebração anual, mas oferecem um paradigma de vida — e, para mim, um chão ético e filosófico para a maternidade. Eles me convidam a pensar que educar uma criança não é apenas transmitir regras ou comportamentos, mas formar caráter, pertencimento, consciência e propósito. É nessa busca — viva, consciente e em movimento — que tenho ancorado a minha maternidade. Cada mãe carrega seu próprio chão — herdado, escolhido ou reconstruído.

Identificar nossos princípios e construir um conjunto de valores que nos orientem é o que nos oferece rumo, firmeza e coerência no cotidiano da maternidade. É desse chão que nascem escolhas mais conscientes — e caminhos mais nossos.

O que proponho aqui não é um modelo a ser seguido, mas uma conversa a ser iniciada. Um convite para que você também olhe para dentro e se pergunte: de onde brotam os meus princípios? Que valores sustentam o meu modo de maternar? Que heranças carrego — e quais escolho transformar?

Se este texto despertou alguma ressonância em você, te convido a caminhar comigo nas próximas reflexões. Que possamos compartilhar perguntas, descobertas e caminhos. Porque maternar, no fundo, não é para ser uma jornada solitária — é sempre um encontro entre histórias, gerações e futuros possíveis.

Nos próximos textos, seguirei essa reflexão, mostrando como podemos vivenciar, no dia a dia, cada um desses princípios na relação com as crianças.

E você, já pensou de onde brotam seus princípios, valores e crenças na maternidade?

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